segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

desvio noturno

Estou sem tempo e isso é doloroso como um vinho branco quente. Mas continuo dentro do mistério da vida e ando descobrindo coisas sobre mim. A noite é um exemplo. Sou todo noturno e não tinha isso claro nas veias. Mas a noite está aí. E eu preciso escrever uma peça. Ou duas. (Ao mesmo tempo). Vou dormir por hoje. Amanhã é dia escuro. Preciso me aprontar para encontrar a morte.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

as chuvas

A chuva guarda mistérios. Prevê lágrimas que ameaçam um rosto e sacrifica-se por elas. Antes que eu pense em entregar-me à tristeza líquida e salgada, ouço uma música úmida a brotar do céu. Vou à varanda e deparo com um muro vivo, homérico, composto por milhares de gotículas em queda livre, inesgotáveis. Se eu pudesse segurar no ar por três segundos imóveis essa deusa. Mas enquanto escrevo, ela se revela silenciando-se. Parece que ouve minhas palavras. Um grande mistério me diz que ela não precisa mais chorar-se. Há, pois, um rio de água salgada e quente disfarçado percorrendo um papel em branco…


(ou um blog preto)*

sábado, 12 de julho de 2008

o mistério

quando nasci, um anjo mudo
sem boca e sem palavras
desceu de lá encima
e tentou dizer coisas que não entendi.

fiquei triste, a cara baixa.
ele tocou minhas costas
olhei a cara sem a boca e ouvi:
tudo é secreto.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

escrevo vermelho

Escrevo com um órgão sem nome que é tudo aquilo que chega de lá. Escrevo com os dedos fantasiados. Minhas máscaras são pesadas e difíceis de tirar. Escrevo vermelho. É meu modo de dizer que a tinta é meu sangue e a palavra meu corpo. O resto é um desconhecido como a alma.

terça-feira, 8 de julho de 2008

crônica para elisa

A história, em si, não importa. Importa a história – e o que a partir dela decorre – de uma espera de uma história.

A menina aguardava ao computador, onde sua espera se disfarçava cinicamente. Os olhos miravam a tela, todo seu corpo, porém, estava prestes a uma explosão íntima, contida que só ela sabia ao certo a dimensão. Todo o seu sangue havia percorrido quilômetros em circuito interno e quente unicamente para o haver esse instante, no qual todos os pêlos de seu corpo se arrepiarão em um susto milimétrico, quase visível, após ouvirem a voz do bibliotecário a dizer:

– Está pronto.

Não sei descrever-te precisamente os movimentos que fizeram a menina decolar da cadeira e ir parar em frente ao bibliotecário, já conhecedor de seus saltos impulsionados pela vida. Ele repetiu, dessa vez em voz meio tom mais baixa:

– Está pronto…

Tenho a impressão de que as mãos da menina elevaram-se com cuidado. Tomou o livro e o olhou por um momento. Espiou a face do bibliotecário e voltou ao livro com todos os seus olhares. Desconfiava que o livro – como aos 23 anos viria a descobrir lendo Borges – guardava uma das línguas secretas que existem nas bibliotecas. É fundamental que o leitor saiba: a menina e Borges, e a cegueira de Borges, estão íntima e estranhamente ligados. Isso, entretanto, é um fundo segredo que nem Deus, nem o Diabo sabem e, por isso, não deve sair das entrelinhas desta crônica.

Com todos os seus olhares assaltava o livro. As palavras leves do bibliotecário tiraram-na de seu devaneio:

– Boas férias! Aproveite para degustar o que tens às mãos…

A menina fez que sim com a cabeça, abriu seu sorriso e quase fechou os olhos, tamanha era sua satisfação. Desenhou um tímido adeus com a mão direita e saiu da biblioteca, levando o livro guardado em seu colo, como um sensível animalzinho.

Ao término da visão, todos os livros voltaram às suas histórias, a que guardam em seu corpo, e o bibliotecário se perdeu nas estantes ao fundo. Fiquei a escrever a história de uma espera de uma história – e o que, a partir dela, decorre –, como se dos livros eu ouvisse um rumor a recontar o que se passou. A biblioteca silenciou para ouvir os segredos…

bebendo música clássica e cheirando o gosto do café...

Talvez a arte consista numa estranha e profunda bruxaria. Algo secreto, nascido no dentro, no fundo; seria, então, fruto da sensibilidade auditiva das mãos ao que é oculto. E o estilo? talvez seja apenas a dança das mãos. Fundamental é rigorosamente que as mãos do artista (ou qualquer instrumento tradutor) ouçam o que é bem próximo de si, como num êxtase íntimo, como se o que se escreve fosse algo logo abaixo da epiderme, como se a língua – e aí reside meu amor pela língua portuguesa – do teor criativo precisasse estar mais do que dentro, transpassando o dentro, transformando-se numa massa densa e incolor que é o dentro do dentro: o segredo, o mistério.

[...]

Senti uma necessidade imensa de falar da noite, acho que porque estou imerso nela quase até o pescoço. Não incluo a cabeça, pois há uma música clássica – Appassionata, de Beethoven – desafogando-me da escuridão. Estava a me perder no corpo invisível e, no entanto, visível da música. Gostaria de ter os divinos dedos capazes de abençoar com um toque umas peças de marfim e criar aleluias sonoras. A música clássica colore a música noturna. A luz a ilumina. Mas hoje eu sou místico e acredito sobretudo no acontecer das coisas. Como acontecem, não me interessa. Interessa-me ouvir uma voz misteriosa dizer-me o que a coisa pede. Sinto que preciso ler Joyce e Clarice. A música aumenta o volume e eu vejo as coisas despencarem e caírem no chão do vazio que é a nota ássona.

[...]

Hoje sinto-me capaz de escrever o poema mais belo e rico de minha vida. Ostra feliz não faz pérola. E estou disposto a sofrer a minha vida para que das letras eu me faça um ser completo. Ouço o que acabo de dizer como uma espécie de juramento. Há um deus artista sobre o meu ombro direito neste segundo, eu juro! Ele pede que eu diga: eu dou o meu corpo à arte, em todo o meu tempo, em toda a minha carne. Jura? Juro por todas as letras vivas no mundo e pelas mortas também. O anjo-deus-demônio beija minha bochecha esquerda e voa para o céu debaixo do chão. Diga-me, alguém, me diga, por favor, se o que eu digo é possível de se sentir! Por favor! Eu quero ser comida para os olhos do leitor. Eu só peço que percebam: eu sou você dentro de mim dentro de mim dentro de mim. Eu gosto de estar vivo, gosto de Mondrian e suas composições porque são a própria necessidade da vida. Eu te amo, te amo.